domingo, 27 de março de 2011

REFORMA ÍNTIMA: CAMINHO PARA A PREVENÇÃO E TRATAMENTO DA OBSESSÃO


Na questão 459 do LE, Kardec faz a seguinte pergunta aos Espíritos:


459. Influem os Espíritos em nossos pensamentos e em nossos atos? “Muito mais do que imaginais. Influem a tal ponto que, de ordinário, são eles que vos dirigem.”


Num primeiro momento, a resposta dada pode parecer bastante perturbadora. Os Espíritos que nos dirigem! Mas, analisando a questão com mais calma, e utilizando, como sempre, a lógica da fé raciocinada, veremos que não poderia ser diferente. Afinal, no nível espiritual no qual estamos, não temos o devido cuidado no trato da nossa inteligência e, como crianças precoces, adquirimos conhecimento antes da sabedoria. No entanto, Deus não nos abandona, e sempre existem Espíritos dedicados que nos auxiliam neste processo de amadurecimento.


A nossa responsabilidade então, é escolher que tipo de companhias espirituais efetivamente queremos. Mas a regra é clara: bons pensamentos, ideais elevados e vontade de aprender atraem bons Espíritos. Maus pensamentos, metas puramente materiais e desejo do mal, atraem Espíritos afinizados com este padrão.


Considerando-se que determinadas pessoas ainda vibram em escala inferior (e podemos constatar isto pela qualidade de determinados programas de televisão, que tem grande audiência), então estas pessoas estarão sujeitas à influenciação que não lhe agrega bons valores para sua vida. Soma-se isso ao fato de que temos um passado a ser resgatado, e que neste passado deixamos muitos companheiros largados no caminho, que não sabem como nos perdoar, e que ainda alimentam desejos de vingança. Estes companheiros do passado tudo farão para prejudicar a marcha do nosso progresso e a aquisição de qualidades que podem enobrecer o nosso caráter. E estes companheiros fatalmente nos encontrarão, em determinado momento de nossa vida, pois aonde está o devedor, também aí estará o cobrador. Temos então caracterizado um legítimo caso de obsessão.


O Evangelho Segundo o Espiritismo, no seu capítulo 28, item 81, define com bastante clareza o que é, afinal, a obsessão: “A obsessão é a ação persistente que um Espírito mau exerce sobre um indivíduo. Apresenta caracteres muito diversos, desde a simples influência moral, sem perceptíveis sinais exteriores, até a perturbação completa do organismo e das faculdades mentais (...)”


A ação persistente dos Espíritos se caracteriza entre outros aspectos, (1) pelas idéias fixas que alimentamos, e que estão conectadas aos desejos não realizados; (2) às fugas psicológicas que tentamos para nos desviar de problemas aparentemente insolúveis; e ainda, (3) pelo comportamento que mantemos em nosso grupo social.


Existem, naturalmente, facetas muito mais amplas acerca da obsessão, e muitas delas expressam-se de modo muito sutil. Nem sempre os casos de obsessão serão “visíveis”, e geralmente estes são em pequeno número. O que deve nos preocupar é justamente o caráter oculto e silencioso desta influência.


Naturalmente, aqueles que se encontram sob esta influência são devedores das Leis Divinas. Em algum momento, seus atos o colocaram na situação de débito com suas consciências.


Não há outro modo de solucionar esta questão que não seja pelo amor. E o amor, entenda-se, deve ser expresso por obras, pois o amor sem obras é vazio. Apenas pela prática da caridade e da renovação é que nos colocaremos protegidos de tal influência. Isso não significa que nossas dívidas serão perdoadas. Mas estaremos procedendo à quitação por outros modos. Não há mais espaço para a Lei de Talião, depois de conhecermos a pureza do Evangelho que Jesus nos ensinou.


Posturas desobsessivas radicais, como o exorcismo, também não resolvem, pois sabe-se que podemos apenas afastar um ou mais Espíritos do nosso campo mental. Porém, se não houver um propósito real de mudanças, outros virão ocupar o espaço que ficou vazio, ou os próprios retornarão. Por isso a recomendação de Jesus: “Vai e não peques mais, para que algo pior não te ocorra.”


Por isso a Doutrina Espírita faz esta campanha permanente pela Evangelização e pela reforma íntima.

Joanna de Angelis nos lembra em sua obra Alerta, psicografia de Divaldo Pereira Franco, que “o conhecimento cristão (...) torna-se o âmago da criatura, torna-se um claridade que vence as resistências das sombras egoístas que teimam por perdurar. Como conseqüência, impõe a necessidade da renovação, vencendo as paixões que ferreteiam o caratê e atormentam os sentimentos.”


Vencer as paixões inferiores é o primeiro e importante passo para a busca de uma renovação autentica que nos coloque em segurança na trilha da reforma íntima, pois a superação de nossos instintos é, em si, a própria renovação. Porém, sem o conhecimento cristão, e principalmente, sua aplicação, através de atos de amor ao próximo. E esta batalha tende a ser muito árdua. Mas, o convite de Jesus é permanente, e ainda ecoa em nossos ouvidos o chamado carinhoso do nosso Mestre: “Vinde a mim, todos os que se encontram cansados, e eu vos aliviarei.”


Com efeito, o processo obsessivo torna-se, ao longo do tempo, extremamente cansativo para os dois lados envolvidos na questão. Por isso a renovação tem que ser um compromisso de urgência. Vivemos, nos dias atuais, um clima de diversidades emocionais sem precedentes na história da humanidade. Por certo que, ao longo dos milênios passados, percebemos em muitos momentos o calor das provações ainda mais acesos na conta de cada ser e de cada povo. No entanto, a atualidade, permeada de inovações tecnológicas e sentimentos controversos, é particularmente interessante no estudo da complicada mente humana.


Conscientes de que possuímos um cabedal de informações que, em teoria, facilitaria nosso caminho, percebemos que muitas vezes este fato acaba nos atrapalhando, por permitirmos que a razão se sobreponha à emoção. E, embora saibamos da necessidade de exercermos a fé raciocinada, é no campo das emoções que triunfaremos ou seremos derrotados, de acordo, naturalmente, com os rumos que decidimos dar à nossa existência.


A benção do livre-arbítrio, por sua vez, nos transfere uma responsabilidade sui generis para nossa história, pois a mesma está atrelada à Lei da Ação e Reação. Ou, como se expressou nosso Mestre Jesus: “A cada um segundo suas obras.”


O campo das emoções é, definitivamente, o espaço onde nos envolvemos em tramas funestas a nos aprisionar dentro de nós mesmos, ou a abertura dos portões onde nos libertamos de tudo o que nos prende à matéria, trilhando o caminho da luz, pelos passos da evolução.


A necessidade, portanto, de transformação de nosso ser moral e emocional é fator imprescindível para alcançarmos a felicidade que tanto almejamos, e a cura da obsessão que tanto queremos. E entenda-se esta transformação como reforma íntima.

Embora estejamos caminhando continuamente em um processo evolutivo, a transformação moral, ou reforma íntima, somente se inicia no momento exato em que percebemos esta necessidade. Geralmente atrelada a processos de dor intensa, a nos ferir o orgulho através das conseqüências de nossos atos passados, entra o ser encarnado ou não, em um processo de angústia a afligir-lhe a alma doente.


Como nos lembra Leon Denis, em sua obra O problema do ser, do destino e da dor: “(...) cada um colhe o fruto imperecível de suas obras passadas e presentes; colhe-o, não por efeito de uma causa exterior, mas por encadeamento que liga em nós mesmos o pesar à alegria, o esforço ao êxito, a culpa ao castigo. É, pois, na intimidade secreta dos nossos pensamentos e na viva luz dos nossos atos que devemos procurar a causa eficiente da nossa situação presente e futura.”


Quando este instante chega, e fatalmente ele chega para todos nós, mais cedo ou mais tarde, a necessidade de mudança, de novas buscas, de alívio para a dor que nos leva à tomada de decisão. É quando iniciamos o processo de nascimento do Homem Novo, deixando para trás velhas fórmulas e posturas, já obsoletas.


Saulo percebeu esta necessidade quando a visão de Jesus colocou todas as suas convicções em cheque, aturdindo-se com a extensão de suas faltas, desesperando-se frente à miséria moral em que estava envolvido, deixando-se dominar pelo pranto, cuja origem encontrava-se na sua consciência culpada, misturando-se à emoção da visão celestial que chegou a cegar-lhe, temporariamente. Saulo percebe também que já não vivia, mas que o Cristo deveria viver nele. Saulo tomou a decisão suprema e deixou-se morrer, para nascer Paulo.


Geralmente nos deixamos envolver pelas situações confusas do nosso cotidiano, esquecendo de nossos princípios, de nossa moral, e até mesmo de Deus, iludidos pela promessa vazia de sucesso, de fama ou de realização financeira. Por conta das necessidades criadas pela nossa ambição, e que geralmente são efêmeras, deixamos a nossa conversão ao trabalho do bem para um momento mais apropriado, como por exemplo, na aposentadoria. Esquecem-nos que, assim como o Moço Rico, talvez não tenhamos um amanhã. O tempo, portanto, deve ser muito bem aproveitado. O convite é para hoje.


Tomada a decisão, precisamos então estabelecer um plano de ação. Neste processo, a Espiritualidade nos auxilia muito. Na verdade, sem este auxílio, jamais conseguiríamos coisa alguma, pois não teríamos forças para nos superar. Assim se inicia, verdadeiramente, a nossa reforma íntima. Assim se inicia, também, o longo e penoso processo de resgate e que, muitas vezes, conhecemos por provas e expiações. Pois não basta que nos arrependamos. É necessário corrigir o que foi feito de maneira errada, conforme Jesus nos asseverou; “Dali não saireis enquanto não pagar o último ceitil.”


Precisamos estar consciente que esta fase será marcada por muita dor, e que será preciso muita disciplina e espírito de sacrifício para que o Plano estabelecido tenha sucesso.


No livro Pão Nosso, Emmanuel nos fala sobre aspecto da regeneração do nosso espírito, que é imprescindível para este processo: “Prepara-te para servir ao Reino Divino, na cidade ou no campo, em qualquer estação, e não procures descanso impensadamente, convicto de que, muita vez, a imobilidade do corpo é tortura da alma.”


Acima de tudo, precisamos nos lembrar de que jamais estaremos sozinhos nesta jornada, pois sempre haverá amigos dispostos a nos acompanhar no caminho do bem. Convictos desta necessidade, e reconhecendo que somos devedores das Leis Divinas, já não esmorecemos. A paz finalmente nos domina a alma e finalmente entenderemos a mensagem de consolo, amparo e esperança singelamente expressos no Salmo 23, versículo 4:


“Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, por que tu estás comigo; a tua vara e teu cajado me consolam.”


Não há alternativas variáveis no processo evolutivo, pois estamos invariavelmente destinados à felicidade. E que o Senhor nos acompanhe nesta jornada infinita pelos verdes vales de nossa alma.


por Fernando Luiz Petrosky

segunda-feira, 7 de março de 2011

CONVITES PARA O BEM




A vida na Terra, principalmente no calor dos últimos tempos, em que o progresso tecnológico atinge limites inimagináveis em épocas passada, nos delineia um cenário bastante interessante na pauta das posturas que se espera em um mundo de amor, para o qual nos candidatamos a permanecer.


O tempo, que deveria ser um elemento abundante, em vista do conforto material proporcionado por toda esta tecnologia, é escasso, e requer um controle bastante severo para que não o desperdicemos. O tempo é aquilo que poderia estar ao nosso lado, esperando um uso racional voltado ao bem e à conquista de valores que nos religuem ao nosso Pai Criador. Mas, infelizmente, não temos a necessária preocupação com este ponto tão importante. Como o temos incessantemente, não nos vem à mente a preocupação de fazer um uso racional dele. E, de fato, temos toda a eternidade para viver. Porque então esta preocupação?

Embora tenhamos a eternidade à nossa disposição, ela chega de maneira diferente. O modo como utilizamos este recurso é de fundamental importância para a determinação do nosso modo de viver. Nós devemos fazer uma pergunta à nossa consciência: Porque Deus nos deu este recurso? Sem dúvida alguma, a lógica nos diz que este ingrediente divino nos foi dado para a conquista do bem, para a elevação de sentimentos, para amparo a quem precisa, enfim, para uma evolução segura no caminho de retorno à Casa do Pai.

Por este motivo é que devemos cuidar para que o tempo, assim como as oportunidades que nos são lançadas tenha um aproveitamento sensato.

Amélia Rodrigues, no livro Primícias do Reino, através da psicografia de Divaldo Pereira Franco, nos conta a história do Moço Rico, que no frescor de sua juventude, teve uma grande oportunidade de ser um servidor do Cristo. Preferiu porém a glória passageira da popularidade, atento à vaidade que se sobressaia de sua personalidade.

Mas, como estas oportunidades nos chegam? Para o Moço Rico, chegou através de um convite diretamente do Cristo, assim como Paulo de Tarso. Mas para nós, não chegam assim, de maneira tão explícita. Chegam muitas vezes como convite à prática do bem, do amor, da caridade, da tolerância ou da solidariedade. No entanto, na grande maioria das vezes, elas chegam disfarçadas de problemas, de dificuldades ou de empecilhos. Para as mentes não treinadas ou preparadas, estas oportunidades ganham um direcionamento diverso do que espera o Mundo Maior. Tornam-se momentos de grandes crises e provações, e temos a tendência a nos revoltarmos com a vida, colocando-nos em situação egoísta de achar que somos os únicos seres do mundo a sofrer. Buscamos soluções apressadas, sem avaliar as conseqüências que isso pode ter na vida de outras pessoas. Entregamos-nos a uma infinidade de lamentações, choros e reclamações completamente sem sentido. São ainda os espinheiros sufocando nossa semente frágil.

Por este motivo, Paulo de Tarso nos adverte da necessidade de fazer o bem, quando nossa situação permitir (Gálatas, 6:10). E Emmanuel vai mais além, afirmando que mesmo em momentos de crise, sempre disporemos do sorriso, da gentileza, da oração. (Emmanuel, Palavras de Vida Eterna)

Ainda mais, ao trabalharmos na felicidade do próximo, exercendo a caridade despreocupada, contamos sempre com o amparo da Espiritualidade, que atendendo aos desígnios de Deus, não nos deixa sozinhos, como afirmou o Espírito de Verdade a Kardec: “Não te ajudar seria não te amar.”

Mas, para quem busca ideais superiores, todos os instantes são oportunidades.
A reencarnação nada mais é do que uma grande chance que Deus nos dá de redimirmos as questões mal-feitas do passado. Quando estamos inseridos em um grupo familiar difícil, que aparentemente não atende ao nosso ideal de felicidade, é um momento “único” que Deus nos possibilita. Neste contexto, percebemos que o companheiro complicado que nos testa a todo instante, é o mesmo companheiro que desviamos do trajeto e que hoje nos cobra o tempo perdido. E Deus nos dá esta oportunidade, colocando-nos numa mesma família, ou num mesmo grupo, para que possamos aprender a amar. E o amor, meta sublime, é o nosso grande ideal.

Daí, nós podemos perceber o quão grave é quando deixamos que estas chances escorram pelos nossos dedos. Naturalmente, isto nos dá uma sensação de vazio, porque não preenchemos o nosso ser com os verdadeiros conteúdos morais que poderão nos auxiliar no futuro com os recursos que nos são possibilitados. Ao recusarmos a tarefa, ou agirmos com displicência ante a necessidade de vigilância e ação, o custo das oportunidades perdidas poderá ser bastante alto, e que pode sobrecarregar o nosso espírito com encargos maiores do que o necessário.

Chances que não retornam, efetivamente, ocorrem a todo instante. Mas, como sempre, devemos ter um olhar atento para este ponto. Naturalmente, não é uma afirmação absoluta, mas que precisa, e deve, ser analisada em termos relativos. O Moço Rico, ao negar o convite do Cristo naquele momento, perdeu uma grande chance de evoluir mais rapidamente na senda do bem. Mas a morte, alcançando-o em uma manobra infeliz, veio ceifar-lhe o corpo físico. Aparentemente, não teria mais chance alguma, porque não aceitou Jesus. Mas, Deus nos deu vida eterna. E Jesus, visitando-o na além da fronteira da morte, vem renovar o convite sublime: “Vem e segue-me!” Já liberto então do fardo material, seguiu pelas portas da dor na direção do infinito Amor.

Isto nos recorda os companheiros que aguardam o momento certo, ou as condições ideais para trabalhar no bem. Aguardam a chegada de recursos materiais (que nunca chegam...) ou a aposentaria (que também pode não chegar...).

A parábola do Moço Rico, então, repete-se incessantemente com todos nós. Precisamos abrir nossos olhos para observar as oportunidades, os convites de Jesus, repetindo em nossos ouvidos: “Vem e segue-me!” E seguir o Cristo é muito mais que aceita-lo. É seguir-lhe o exemplo. É viver o seu ideal. É colocar em ação o seu Evangelho.

Será que ainda somos a semente que está presa nos espinheiros, ou seja, os que compreendem a verdade, mas não tem força para vencer os “cuidados deste século”, que se refletem também nas inovações tecnológicas e no conforto por elas proporcionado.

Quando aceitamos os convites para o bem que a vida nos proporciona, estamos retribuindo à vida os benefícios que nós mesmos usufruímos (Joanna de Angelis, Rumos Libertadores).

O Evangelho Segundo o Espiritismo nos mostra como sermos o Homem de Bem, ou seja, aquele que cumpre a lei de justiça, de amor e de caridade, sem esperar que a necessidade nos convoque a isto. Devemos sempre questionar a nossa consciência, para verificar se não violamos a lei, se não desperdiçamos alguma ocasião para ser útil.

Precisamos adquirir com urgência o hábito da caridade, espalhando o amor sobre nós. Precisamos aprender a ter satisfação nos benefícios que espalhamos, no consolo que proporcionamos, e não apenas nos gozos materiais. Precisamos aprender a sermos bons, humanos e benevolentes para com todos. Precisamos nos desligar do rancor, do ódio, da mágoa e dos desejos de vingança. Precisamos, enfim, imitar o Cristo em todas as nossas atitudes. Se nós queremos ser bons espíritas e bons cristãos, devemos eleger o bem como meta. Devemos recordar que o Evangelho nos dá chave para a vitória verdadeira. Devemos fazer a nossa reforma íntima, nos modificarmos continuamente na direção do Cristo, através do bem. Quando agirmos assim, estaremos efetivamente aceitando o convite de Jesus, que incansável repete aos nossos ouvidos: “Vem e segue-me.”


Por Fernando Luiz Petrosky