Na questão 459 do LE, Kardec faz a seguinte pergunta aos Espíritos:
459. Influem os Espíritos em nossos pensamentos e em nossos atos? “Muito mais do que imaginais. Influem a tal ponto que, de ordinário, são eles que vos dirigem.”
Num primeiro momento, a resposta dada pode parecer bastante perturbadora. Os Espíritos que nos dirigem! Mas, analisando a questão com mais calma, e utilizando, como sempre, a lógica da fé raciocinada, veremos que não poderia ser diferente. Afinal, no nível espiritual no qual estamos, não temos o devido cuidado no trato da nossa inteligência e, como crianças precoces, adquirimos conhecimento antes da sabedoria. No entanto, Deus não nos abandona, e sempre existem Espíritos dedicados que nos auxiliam neste processo de amadurecimento.
A nossa responsabilidade então, é escolher que tipo de companhias espirituais efetivamente queremos. Mas a regra é clara: bons pensamentos, ideais elevados e vontade de aprender atraem bons Espíritos. Maus pensamentos, metas puramente materiais e desejo do mal, atraem Espíritos afinizados com este padrão.
Considerando-se que determinadas pessoas ainda vibram em escala inferior (e podemos constatar isto pela qualidade de determinados programas de televisão, que tem grande audiência), então estas pessoas estarão sujeitas à influenciação que não lhe agrega bons valores para sua vida. Soma-se isso ao fato de que temos um passado a ser resgatado, e que neste passado deixamos muitos companheiros largados no caminho, que não sabem como nos perdoar, e que ainda alimentam desejos de vingança. Estes companheiros do passado tudo farão para prejudicar a marcha do nosso progresso e a aquisição de qualidades que podem enobrecer o nosso caráter. E estes companheiros fatalmente nos encontrarão, em determinado momento de nossa vida, pois aonde está o devedor, também aí estará o cobrador. Temos então caracterizado um legítimo caso de obsessão.
O Evangelho Segundo o Espiritismo, no seu capítulo 28, item 81, define com bastante clareza o que é, afinal, a obsessão: “A obsessão é a ação persistente que um Espírito mau exerce sobre um indivíduo. Apresenta caracteres muito diversos, desde a simples influência moral, sem perceptíveis sinais exteriores, até a perturbação completa do organismo e das faculdades mentais (...)”
A ação persistente dos Espíritos se caracteriza entre outros aspectos, (1) pelas idéias fixas que alimentamos, e que estão conectadas aos desejos não realizados; (2) às fugas psicológicas que tentamos para nos desviar de problemas aparentemente insolúveis; e ainda, (3) pelo comportamento que mantemos em nosso grupo social.
Existem, naturalmente, facetas muito mais amplas acerca da obsessão, e muitas delas expressam-se de modo muito sutil. Nem sempre os casos de obsessão serão “visíveis”, e geralmente estes são em pequeno número. O que deve nos preocupar é justamente o caráter oculto e silencioso desta influência.
Naturalmente, aqueles que se encontram sob esta influência são devedores das Leis Divinas. Em algum momento, seus atos o colocaram na situação de débito com suas consciências.
Não há outro modo de solucionar esta questão que não seja pelo amor. E o amor, entenda-se, deve ser expresso por obras, pois o amor sem obras é vazio. Apenas pela prática da caridade e da renovação é que nos colocaremos protegidos de tal influência. Isso não significa que nossas dívidas serão perdoadas. Mas estaremos procedendo à quitação por outros modos. Não há mais espaço para a Lei de Talião, depois de conhecermos a pureza do Evangelho que Jesus nos ensinou.
Posturas desobsessivas radicais, como o exorcismo, também não resolvem, pois sabe-se que podemos apenas afastar um ou mais Espíritos do nosso campo mental. Porém, se não houver um propósito real de mudanças, outros virão ocupar o espaço que ficou vazio, ou os próprios retornarão. Por isso a recomendação de Jesus: “Vai e não peques mais, para que algo pior não te ocorra.”
Por isso a Doutrina Espírita faz esta campanha permanente pela Evangelização e pela reforma íntima.
Joanna de Angelis nos lembra em sua obra Alerta, psicografia de Divaldo Pereira Franco, que “o conhecimento cristão (...) torna-se o âmago da criatura, torna-se um claridade que vence as resistências das sombras egoístas que teimam por perdurar. Como conseqüência, impõe a necessidade da renovação, vencendo as paixões que ferreteiam o caratê e atormentam os sentimentos.”
Vencer as paixões inferiores é o primeiro e importante passo para a busca de uma renovação autentica que nos coloque em segurança na trilha da reforma íntima, pois a superação de nossos instintos é, em si, a própria renovação. Porém, sem o conhecimento cristão, e principalmente, sua aplicação, através de atos de amor ao próximo. E esta batalha tende a ser muito árdua. Mas, o convite de Jesus é permanente, e ainda ecoa em nossos ouvidos o chamado carinhoso do nosso Mestre: “Vinde a mim, todos os que se encontram cansados, e eu vos aliviarei.”
Com efeito, o processo obsessivo torna-se, ao longo do tempo, extremamente cansativo para os dois lados envolvidos na questão. Por isso a renovação tem que ser um compromisso de urgência. Vivemos, nos dias atuais, um clima de diversidades emocionais sem precedentes na história da humanidade. Por certo que, ao longo dos milênios passados, percebemos em muitos momentos o calor das provações ainda mais acesos na conta de cada ser e de cada povo. No entanto, a atualidade, permeada de inovações tecnológicas e sentimentos controversos, é particularmente interessante no estudo da complicada mente humana.
Conscientes de que possuímos um cabedal de informações que, em teoria, facilitaria nosso caminho, percebemos que muitas vezes este fato acaba nos atrapalhando, por permitirmos que a razão se sobreponha à emoção. E, embora saibamos da necessidade de exercermos a fé raciocinada, é no campo das emoções que triunfaremos ou seremos derrotados, de acordo, naturalmente, com os rumos que decidimos dar à nossa existência.
A benção do livre-arbítrio, por sua vez, nos transfere uma responsabilidade sui generis para nossa história, pois a mesma está atrelada à Lei da Ação e Reação. Ou, como se expressou nosso Mestre Jesus: “A cada um segundo suas obras.”
O campo das emoções é, definitivamente, o espaço onde nos envolvemos em tramas funestas a nos aprisionar dentro de nós mesmos, ou a abertura dos portões onde nos libertamos de tudo o que nos prende à matéria, trilhando o caminho da luz, pelos passos da evolução.
A necessidade, portanto, de transformação de nosso ser moral e emocional é fator imprescindível para alcançarmos a felicidade que tanto almejamos, e a cura da obsessão que tanto queremos. E entenda-se esta transformação como reforma íntima.
Embora estejamos caminhando continuamente em um processo evolutivo, a transformação moral, ou reforma íntima, somente se inicia no momento exato em que percebemos esta necessidade. Geralmente atrelada a processos de dor intensa, a nos ferir o orgulho através das conseqüências de nossos atos passados, entra o ser encarnado ou não, em um processo de angústia a afligir-lhe a alma doente.
Como nos lembra Leon Denis, em sua obra O problema do ser, do destino e da dor: “(...) cada um colhe o fruto imperecível de suas obras passadas e presentes; colhe-o, não por efeito de uma causa exterior, mas por encadeamento que liga em nós mesmos o pesar à alegria, o esforço ao êxito, a culpa ao castigo. É, pois, na intimidade secreta dos nossos pensamentos e na viva luz dos nossos atos que devemos procurar a causa eficiente da nossa situação presente e futura.”
Quando este instante chega, e fatalmente ele chega para todos nós, mais cedo ou mais tarde, a necessidade de mudança, de novas buscas, de alívio para a dor que nos leva à tomada de decisão. É quando iniciamos o processo de nascimento do Homem Novo, deixando para trás velhas fórmulas e posturas, já obsoletas.
Saulo percebeu esta necessidade quando a visão de Jesus colocou todas as suas convicções em cheque, aturdindo-se com a extensão de suas faltas, desesperando-se frente à miséria moral em que estava envolvido, deixando-se dominar pelo pranto, cuja origem encontrava-se na sua consciência culpada, misturando-se à emoção da visão celestial que chegou a cegar-lhe, temporariamente. Saulo percebe também que já não vivia, mas que o Cristo deveria viver nele. Saulo tomou a decisão suprema e deixou-se morrer, para nascer Paulo.
Geralmente nos deixamos envolver pelas situações confusas do nosso cotidiano, esquecendo de nossos princípios, de nossa moral, e até mesmo de Deus, iludidos pela promessa vazia de sucesso, de fama ou de realização financeira. Por conta das necessidades criadas pela nossa ambição, e que geralmente são efêmeras, deixamos a nossa conversão ao trabalho do bem para um momento mais apropriado, como por exemplo, na aposentadoria. Esquecem-nos que, assim como o Moço Rico, talvez não tenhamos um amanhã. O tempo, portanto, deve ser muito bem aproveitado. O convite é para hoje.
Tomada a decisão, precisamos então estabelecer um plano de ação. Neste processo, a Espiritualidade nos auxilia muito. Na verdade, sem este auxílio, jamais conseguiríamos coisa alguma, pois não teríamos forças para nos superar. Assim se inicia, verdadeiramente, a nossa reforma íntima. Assim se inicia, também, o longo e penoso processo de resgate e que, muitas vezes, conhecemos por provas e expiações. Pois não basta que nos arrependamos. É necessário corrigir o que foi feito de maneira errada, conforme Jesus nos asseverou; “Dali não saireis enquanto não pagar o último ceitil.”
Precisamos estar consciente que esta fase será marcada por muita dor, e que será preciso muita disciplina e espírito de sacrifício para que o Plano estabelecido tenha sucesso.
No livro Pão Nosso, Emmanuel nos fala sobre aspecto da regeneração do nosso espírito, que é imprescindível para este processo: “Prepara-te para servir ao Reino Divino, na cidade ou no campo, em qualquer estação, e não procures descanso impensadamente, convicto de que, muita vez, a imobilidade do corpo é tortura da alma.”
Acima de tudo, precisamos nos lembrar de que jamais estaremos sozinhos nesta jornada, pois sempre haverá amigos dispostos a nos acompanhar no caminho do bem. Convictos desta necessidade, e reconhecendo que somos devedores das Leis Divinas, já não esmorecemos. A paz finalmente nos domina a alma e finalmente entenderemos a mensagem de consolo, amparo e esperança singelamente expressos no Salmo 23, versículo 4:
“Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, por que tu estás comigo; a tua vara e teu cajado me consolam.”
Não há alternativas variáveis no processo evolutivo, pois estamos invariavelmente destinados à felicidade. E que o Senhor nos acompanhe nesta jornada infinita pelos verdes vales de nossa alma.
por Fernando Luiz Petrosky
