domingo, 15 de novembro de 2009

O HOMEM NO MUNDO

Durante seus primeiros passos no ambiente terreno, viveu o homem primitivo um período de predominância dos instintos. Equiparando-se aos animais, não tinha lucidez para julgar o que era certo ou errado. Não sabia discernir entre o bem e o mal.

Livre da consciência, matava e comia quando tinha fome; buscava rios e lagos quando tinha sede; deitava-se e dormia quando tinha sono.

Tinha vida em plena liberdade. Mas por não conhecer o valor que esta representa, e preso às paixões impulsivas de seus instintos animais, não se preocupa com a vida, e o que ela representa em sua essência.

Eram dias difíceis. Porém, em contrapartida, de grande felicidade, pois tal como a criança, não tinha compromissos e obrigações que lhes lembrassem o sentido de responsabilidade.

A vida então se descortinava a cada dia em forma de um espetáculo de cores e sons que hoje nos parece irreal. As paisagens que se abriam aos seus olhos parecia ser o próprio Éden, que se perdia na linha do horizonte em telas multicores, banhadas pela luz dourada do sol, e refrigerada pela brisa pura de sua atmosfera.

Observando as maravilhas do planeta em que vivia, e apesar de sua condição inferior, tinha em seu íntimo a intuição da existência de Deus, e demonstra de maneira inocente e espontânea sua espiritualidade. Por este motivo, o homem primitivo identificava Deus nos fenômenos da natureza, e o adorava e temia nos raios, nos trovões, no fogo, etc. Criava também figuras mitológicas, onde imaginava retratar o Criador, em estátuas de pedra, para as quais rendia graças.

Hoje vemos os registros arqueológicos, e nos espantamos com a diversidade de sinais religiosos primitivos. Porém, em essência, são os mesmos seres primitivos de ontem, vivendo no mesmo planeta, mas com outra roupagem.

Mas no nosso passado, tal como fazemos hoje, buscamos as respostas que nos faça entender o mundo à nossa volta. Chega um momento em que a simples visão das paisagens bonitas nos fazia notar e questionar a regularidade da natureza, a alternância ente o dia e a noite, entre a chuva e a seca, entre o frio e o calor. Observamos que nem todos os animais matavam para comer; que alguns voavam, outros nadavam. Notamos estarrecidos que nós mesmos éramos diferentes uns dos outros. Alguns eram machos e outros eram fêmeas. E as perguntas não paravam de martelar; por quê?

Eram os primeiros sinais do raciocínio lógico a dominar nossa mente de idéias e pensamentos que mudaram os destinos da Terra.

Mas, faltando ainda o discernimento e o equilíbrio, esquecemos um pouco de nossa espiritualidade, e passamos a cultuar a mente e a ciência.
O homem passou do ser primitivo que era para o homem racional. E grandes pensadores surgiram, muitas escolas do pensamento se abriram. Entre as várias correntes, uma se destacou e que foi inaugurada por Descartes, que brindou o mundo com seu paradigma mecanicista, que tenta encaixar todas as questões que afligem o ser humano em regras e leis uniformes. E a observação e conhecimento destas leis poderiam trazer ao homem as respostas que tanto procura. No entanto, faltou a humildade para reconhecer eu estas leis são de Deus, que as criou para que tivéssemos uma vida em plenitude, e pudéssemos usar todas os recursos naturais para nossa sobrevivência e evolução.

O paradigma existencialista reflete a postura do homem que, perdido entre a frieza do raciocínio e as benesses da espiritualidade, ficou perdido no meio do caminho, não aceitando as alternativas colocadas à disposição. Não sabe de onde vem, nem para onde vai, mas sabe que não quer aceitar nada. A intenção do ser existencialista é driblar a morte, perpetuando sua permanência no mundo terreno. E porque isto não é possível, deixa-se dominar pela tristeza, pelo desânimo, pelo pessimismo persistente e exagerado.

Não demorou muito para que o homem percebesse que a única maneira de reencontrar a felicidade e o paraíso perdido era voltar às origens e reencontrar Deus, o Criador que nos presenteou a vida. Reencontrar a espiritualidade perdida passa a ser a nova meta do homem no mundo.

Percebemos esta preocupação pela quantidade de religiões e doutrinas espalhadas pelo mundo, e que expressam esta busca incessante e desenfreada.

No ESE, no cap. XVII, temos a instrução de um Espírito Protetor, que nos dá a visão espírita do assunto.

Não é por acaso que a genialidade de Kardec inseriu este texto no capítulo intitulado “Sede Perfeitos”. Porque vemos que o maior objetivo do homem no mundo é buscar a perfeição. Tudo que fazemos no planeta Terra é visando a perfeição, ainda que não percebemos. A busca da perfeição, naturalmente, nos exige uma dose de força moral suficiente para vencermos os problemas, as dificuldades e as tentações que surgem no nosso caminho. Há que se seguir um roteiro seguro que traga sucesso em nossa empreitada. Se não conseguirmos resultados agora, não há motivos para desânimo, pois novas oportunidades surgem, outras vidas virão, novos encontros surgirão.

Kardec nos falou muito da reforma íntima. E na questão da busca da perfeição o primeiro ponto a definir é a renovação interior, começando pelos nossos pensamentos e nossos corações.

Temos que deixar de lado sentimentos que nos trazem a felicidade aparente, mas que iludem nossos sentidos, anestesiam nosso raciocínio. É necessário elevar o pensamento ao alto pedindo forças para suportarmos com retidão todas as dificuldades, sem nos entregarmos ao desânimo e à revolta. Precisamos aprender a cultivar um sentimento de piedade pelos que passam por dificuldades, e auxiliarmos sempre que possível.
Não estamos sozinhos no mundo. O homem é um ser social por excelência. Por isso, toda evolução e progresso deve ser sempre em contato com todos que dividem este espaço conosco. É ilusão achar que isolando-nos a uma vida mística, de contemplação, de culto exclusivamente a Deus irá nos tornar melhores.

É com ajuda uns dos outros que conseguiremos forças para melhorar. Além do mais, o contato com a sociedade nos permite excelentes condições de corrigirmos nossos erros do passado, e que exigem o nosso esforço. Jesus nos falou que não subiremos ao Reino dos Céus enquanto não quitarmos o último ceitil.

Porém, o mérito é conviver em sociedade sacrificando os desejos desnecessários, no intuito de se melhorar, melhorando os que conosco convivem. É orar e vigiar sempre.

Desta forma, conseguiremos manter a alegria e a jovialidade naturais, que nos abrem o caminho para o cultivo de bons relacionamentos. E se nossos companheiros não quiserem nos seguir neste momento, não há motivos para tristeza. Para cada um, o momento chega em períodos diferentes. Por isso, não é necessário forçar os outros a pensar e agir como nós. O respeito é fundamental para uma boa convivência social.

Agindo desta forma, sob esta diretriz, percebemos que não precisamos nos manter exageradamente sérios, renunciando a tudo. Podemos e devemos nos distrair, aproveitar os prazeres que a vida nos dá para relaxarmos e aliviarmos as pressões. Porém, sempre de forma saudável. O grande problema do mundo hoje é pensar que precisamos abrir mão do bom senso para conseguir diversão.

Nas festas sociais e populares, a fim de conseguir alegria e satisfação, abrimos as portas do nosso espírito a todo tipo de vícios, que irão nos atrasar o caminho, pois a satisfação que estas sensações trazem são fugazes como o tempo. São oportunidades perdidas, que deverão ser revisitadas, até que possamos supera-las.

Por isso, a orientação de Jesus: “Orai e vigiai”.

Elevar o pensamento para agradecer o que já conseguimos. E lembrar que em tudo há a presença de Deus.

É necessário também ajudar os irmãos que tem mais dificuldades do que nós, e os que ficam para trás. O mundo é uma embarcação em que entramos de mãos dadas, e temos que sair da mesma forma. O isolamento nos afasta deste propósito e nos leva ao egoísmo.

É preciso, por fim, cuidar do nosso corpo e do nosso espírito. O corpo é propriedade de Deus, que nos foi dado por empréstimo para podermos cumprir nossa missão na Terra, que é melhorar o espírito. Lembrando, buscar a perfeição.

A tarefa é grande, e o trabalho é árduo. Mas se nos propomos a construir um mundo melhor, deixando nossa marca na senda do progresso, o peso da carga se dilui, pois teremos uma caravana de Espíritos encarnados e desencarnados que nos ajudarão.

E quando o desânimo surgir, lembremos de Jesus, que era perfeito e puro, e mesmo assim sofreu, não para nos salvar, mas para mostrar o caminho da salvação, da perfeição. O exemplo de Jesus é suficiente para nos dar forças, e a lembrança de que suas palavras são a melhor obra de auto-ajuda que já existiu. Amélia Rodrigues lembra que hoje a convulsão do mundo prossegue, porque Jesus continua esquecido.

Hoje, a missão do homem no mundo é resgatar a imagem de Jesus, evangelizando-se, e fazendo o bem sempre.

por Fernando Luiz Petrosky

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