segunda-feira, 12 de outubro de 2009

REALIDADE DISTANTE


Foto: Banco de Imagens da Web

Sonhei que sonhava

Tudo era, então, risonho e doce encantamento, onde a dor e o sofrimento, a tristeza e a maldade se dilíam, quais bolas de sabão ao sabor do vento, em primavera cantarolante.

Os rios encacheirados douravam-se sob os raios de permanente luz e os homens, em bandos gárrulos, exaltavam o amor.

Havia, em toda parte, a fraternidade sem suspeita e o serviço sem remuneração.

A poesia do bem recitava os versos de enternecimento com que as criaturas melhor se entendiam e completavam.

Recordei-me da guerra e do ódio, das pestes e dos suplicíos, mas ninguém me pôde responder, quando interroguei os felizes habitantes desse paraíso.

Todos eram jovens e sábios com a idade dos tempos vencidos, além dos tempos a vencer...

Nem sombra ou mácula encontrei em parte alguma e dei-me conta de que as claridades que fulguravam em todo lugar nasciam em toda parte, sem extinguir-se em noite de triunfo mentiroso.

Sonhei que sonhava com o porvir, quando o Carro do Rei da Juventude e da Paz rasgará a estrada do infinito no rumo do sem-fim.

Amado Rei, por quem anelo, sempre sonhei contigo, porém, hoje sonhei que sonhava.

... A Realidade chegou e despertou-me, dizendo-me, em canção de esperança: durma e aguarda! Amanhã já não sonharás, porque o teu sonho já será.

Rabindranath Tagore
Do livro: Estesia

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